Como a escrita entrou na minha vida

Antes de me tornar autora, as palavras já tinham se tornado abrigo.

3/8/20262 min read

A escrita entrou na minha vida de um jeito muito natural, quase silencioso. Antes mesmo de pensar em publicar um livro, eu já carregava comigo um amor muito grande pela leitura. Sempre gostei de ler, de mergulhar em histórias, de me perder nas palavras e encontrar, nelas, sentimentos que muitas vezes eu nem sabia nomear.

Na adolescência, escrever começou a fazer parte de mim de forma muito intensa. Naquela época, eu escrevia cartas, pensamentos, desabafos... coisas que eu não conseguia contar para ninguém. Era como se o papel me escutasse sem julgamento. Como se, ali, eu pudesse ser inteira, sem medo, sem precisar esconder o que sentia.

Com o passar do tempo, a escrita deixou de ser só algo que eu gostava de fazer. Ela se tornou refúgio.

Quando o vitiligo apareceu na minha vida, eu enfrentei um dos períodos mais difíceis da minha história. Foi um processo dolorido, profundo, depressivo. Eu estava cercada de pessoas, mas, ao mesmo tempo, me sentia muito sozinha. Era uma solidão difícil de explicar, porque ela não vinha da ausência de gente, mas do peso do que eu estava vivendo por dentro.

E, naquele momento, escrever foi o que me restou. Foi na escrita que eu consegui colocar para fora dores que eu não sabia dizer em voz alta. Foi ali que encontrei uma forma de suportar o que parecia grande demais. As palavras me acolheram quando eu me sentia perdida. Elas me deram um lugar para existir quando eu já não sabia muito bem como lidar com tudo o que estava sentindo.

Escrever me ajudou a continuar. Depois de um longo período de tratamento, de muitas terapias e de um processo de reconstrução muito profundo, eu entendi que talvez aquelas palavras não precisassem mais ficar só comigo. Percebi que tinha chegado a hora de publicar, de tirar da intimidade aquilo que, por tanto tempo, tinha sido abrigo.

E foi aí que tudo começou a ganhar um novo sentido. O que antes era refúgio passou a se tornar também um objetivo. O que antes era uma forma de sobreviver emocionalmente começou a se transformar em caminho, em propósito, em voz.

Hoje, publicar meus livros é muito mais do que realizar um sonho. É honrar a mulher que escreveu em silêncio quando ninguém via sua dor. É transformar feridas em palavras, sentimentos em histórias e vivências em algo que também possa alcançar outras pessoas.

A escrita entrou na minha vida primeiro como abrigo. Depois, virou força. E hoje, também é parte daquilo que me move.